Personal Trainer - Ednilson Gomes
RESUMO
A utilização de creatina como forma de otimizar os resultados de treinamentos que objetivam força, hipertrofia muscular, aumento de massa magra, é amplamente difundida, podendo gerar resultados positivos até mesmo no tratamento de doenças que resultam em atrofia e fadiga muscular.
Seu principal mecanismo ergogênico está relacionado com o aumento do aporte de creatina muscular, o que favorece a recomposição do sistema energético ATP-CP. A associação da creatina com outras substâncias como carboidrato ou cafeína altera sua eficácia.
RECURSOS ERGOGÊNICOS
Dentre os praticantes de musculação, modalidade de maior procura nas academias, é cada vez mais comum a utilização desses recursos que possam melhorar o desempenho do seu treinamento, aumentando a força e a massa muscular (Iriart e Andrade, 2002; Araújo et al., 2002; Santos e Santos, 2002). Três categorias de treinamento são descritas por Berne et al. (2004): aprendizado, resistência e força. Este último, caracterizado por hipertrofia celular e capacidade glicolítica aumentada das unidades motoras empregadas prevalece nas academias. A busca por meios que melhorem a performance de atletas, segundo Alves e Dantas (2002), se dá devido a crescente competitividade, já que “o intervalo de tempo que separa o resultado obtido por atletas de alto rendimento durante uma competição é, na maioria das vezes, medido em centésimos de segundo. Portanto, qualquer pequena melhora do rendimento pode levar a uma diferença substancial na sua colocação.”
CREATINA
É utilizada para otimizar os objetivos de treinamentos com alta intensidade e curta duração, como por exemplo o treinamento de força, não existindo evidências significativas para o treinamento aeróbio (SBME, 2003), e, tem sido muito estudada em aspecto de ganho de força, hipertrofia muscular, aumento de massa magra, e também, no tratamento de doenças, principalmente naquelas que resultam em atrofia e fadiga muscular (Clark,1997; Mendes e Tirapegui, 2002; Villaça et. al., 2005; Sousa Junior et al., 2008).
Sua síntese ocorre em duas etapas, primeiramente no rim, em uma reação envolvendo os aminoácidos arginina e glicina e catalisada pela enzima transaminidase, e depois no fígado, com adição de um grupo metil fornecido a partir da metionina. Posteriormente, é distribuída aos tecidos através do sangue, sendo seu destino principal o tecido muscular esquelético (Peralta e Amancio, 2002).
A concentração de creatina no organismo é de, aproximadamente, 120g, e no plasma varia entre 50 e 100 mmol/L. É encontrada principalmente no músculo (95%), como também no coração, testículos, retina e cérebro (Mendes e Tirapegui, 2002; Peralta e Amancio, 2002; Bargieri et. al., 2005). Além da creatina endógena, encontra-se esse suplemento em produtos de origem animal, tais como carnes suína (5g/kg), bovinas (4,5g/kg), salmão (4,5g/kg), atum (4g/kg), dentre outros. Segundo Mendes e Tirapegui (2002), a ingestão de creatina parece exercer uma função no controle de sua síntese, através de um mecanismo de retroalimentação negativa, ou "feedback".
Durante os primeiros segundos de um exercício intenso, a concentração muscular de ATP é mantida em nível mais ou menos constante. O ATP utilizado é rapidamente reposto a partir da quebra da fosfocreatina (PCr). Assim, os níveis de PCr diminuem rapidamente à medida em que este composto é usado para regenerar o ATP (Peralta e Amancio, 2002).
A creatina age fornecendo energia para atividades musculares de alta intensidade e curta duração, participando da formação da fosfocreatina por meio de uma reação reversível que libera um fosfato de alta energia da molécula de adenosina trifosfato (ATP), formando adenosina difosfato (ADP), sendo esta reação catalisada pela enzima creatina cinase (Bargieri et al.,
Harris et al. (1993), mostrou que a ingestão de 2 a 5g/dia de creatina aumentou a concentração intracelular de creatina e PCr no músculo de humanos. Já Greenhaff et al. (1993) e Hultman et al. (1996) estudaram a utilização da creatina em doses mais elevadas: 5g ingeridas quatro vezes ao dia, totalizando 20g/dia. Esta é a dose de carga, que permanece durante 6 a 14 dias. Depois, diminui-se a quantidade para 2 a 5g/dia, chamada dose de manutenção, que perdura durante o período de treinamento. Caso a creatina seja ingerida em pequenas doses (2 a 3g/dia), sem a dose de carga, ainda assim haverá aumento da concentração de creatina muscular, porém com um menor índice de acumulação.
CREATINA ASSOCIADA A OUTRAS SUBSTÂNCIAS
Radda (1996) demonstrou que a insulina, em concentrações elevadas (hiperinsulinemia), também podem estimular a assimilação de creatina em células musculares. Green et al. (1996), administraram creatina associada a carboidratos afim de investigar o possível acúmulo do suplemento potencializado pelo tratamento concomitante de carboidratos. O estudo resultou em um aumento do transporte de creatina até o músculo, aumentando assim a retenção muscular deste nutriente, que seria explicada pela estimulação provocada pela insulina sobre a enzima Na+-K+-APTase, promovendo o co-transporte de Na+-Creatina. Isto sugere que a ingestão de carboidratos pode otimizar a captação muscular de creatina. Já a cafeína tem apresentado efeitos negativos quanto à suplementação de creatina, porém, os mecanismos responsáveis por essa inibição ainda não estão totalmente esclarecidos (Mendes e Tirapegui, 2002; Bargieri et al., 2005
OUTROS PAPÉIS DA CREATINA
Efeitos benéficos a nível de sistema nervoso central, também são relatados (Andres et al., 2008) sobre a suplementação com creatina. Esta, pode reduzir a perda de células neuronais em doenças neurológicas, e promover a diferenciação de células precursoras neuronais, podendo melhorar estratégias de substituição de células neuronais.
RISCOS À SAÚDE
Durante a fase inicial da suplementação com creatina, pode-se observar um decréscimo na excreção de água, devido à maior retenção de líquido, provavelmente pelo co-transporte de creatina e sódio, gerando dores musculares e desidratação, porém a correlação entre a dose de carga e esses sintomas ainda não está bem esclarecida. Os níveis séricos de creatinina, metabólito da conversão espontânea e não enzimática da creatina, apresentaram um aumento em atletas que ingeriam 20g/dia de creatina, porém, estes níveis retornaram aos padrões normais após uma diminuição da ingestão do suplemento (Clark, 1007).
Alguns efeitos colaterais (Mendes e Tirapegui, 2002; Peralta e Amancio, 2002; Bargieri et al., 2005) incluem diarréia, cãibras musculares, devido à retenção de líquido, ruptura e distensão muscular, e aumento do peso. Porém, estudos de Mihic et al. (2000) não encontraram efeito sobre a pressão arterial e função renal. Já Volek et al. (2001), observaram alteração da pressão arterial e função renal após suplementação com creatina, além de alterações na temperatura corporal e freqüência cardíaca.
Mendes e Tirapegui (2002) enfatizam que muitos estudos para averiguar a eficácia dessa suplementação são realizados com indivíduos não treinados ou moderadamente treinados, e, os poucos estudos realizados com atletas altamente treinados têm apresentado resultados controversos, onde a grande maioria apresenta dificuldades em demonstrar melhoras significativas no desempenho em decorrência desse tipo de suplementação.
CONCLUSÃO
Os principais ganhos com a suplementação de creatina para treinamento de força incluem aumento de força, massa magra, hipertrofia muscular, e as doses recomendadas sugerem duas fases, uma de carga, onde há uma saturação com doses mais elevadas de creatina, e a outra de manutenção, com ingestão em menor quantidade. Estudos demonstram que sem a dose de carga, também haverá aumento da concentração de creatina muscular, porém com um menor índice de acumulação.
Encontrada em produtos de origem animal, a creatina pode ter seus efeitos potencializados ou diminuídos pelo seu uso em associação a outras substâncias, como por exemplo, carboidratos, que aumentam a captação de creatina provavelmente pela maior liberação de insulina, que estimula o co-transporte de Na+-creatina, ou o café, que reduz os efeitos da creatina, porém com mecanismos ainda não esclarecidos.
Portanto, diante de diversas produções científicas que, muitas vezes, contradizem outras, e, tendo em vista os avanços da ciência para se obter dados cada vez mais precisos e específicos, incita-se aqui a necessidade de mais estudos acerca desse ergogênico amplamente utilizado e seus efeitos colaterais.
REFERÊNCIAS
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